Visitas Humanitárias

Quando eu estava na fila de espera o meu clínico me sugeriu conversasse com alguém que já fora transplantado – foi uma das melhores coisas que eu poderia ter feito.

Lembro-me nitidamente de como isso ocorreu: ao tocar a campainha do apartamento dessa pessoa eu esperava tudo menos que o próprio transplantado viesse abrir a porta para mim. Convidou-me a entrar, ofereceu-me um café e uns biscoitos, ele morava sozinho num flat e nos pusemos a conversar sobre vários assuntos menos sobre transplante até que me dei conta disso e fiz-lhe algumas perguntas, todas próprias de quem estava ansioso pelo que viria. Saí de lá muito surpreso por não ter encontrado um “ET”.

Depois de transplantado eu passei a fazer o mesmo, geralmente a pedido dos médicos e toda vez que isso ocorre é uma experiência única. De uma forma geral eu sou esperado não só pelo transplantado como também pela sua família e todos tem no íntimo aquele pensamento que tudo será uma grande aventura que pode dar certo para alguns, mas provavelmente não acabará bem mo nosso caso.

A surpresa começa com a minha chegada: todos esperam uma pessoa trôpega, frágil, acompanhada por alguém e aí chego sozinho, corado, bem disposto, geralmente depois de um dia de trabalho, carregando a minha pasta enfim, uma pessoa completamente normal!

Depois da surpresa as perguntas começam a surgir e rapidamente estabelecemos uma intimidade de quem já se conhece há muito tempo. Faço sempre questão que  essa ocorra junto com o meu “futuro colega” para que não fique no ar aquela sensação de que falo coisas distintas com a família e com o futuro transplantado.

O resultado destas visitas é deixar semeada uma esperança real de que tudo acabará bem e isso sempre é muito bom para todos e principalmente para mim. Saio sempre renovado e muito alimentado emocionalmente dessas visitas.