A INSUFICIÊNCIA CARDÍACA

“O coração é uma bomba” – quem primeiro fez essa colocação foi o médico inglês William Harvey (1578-1657) ao publicar o seu livro “Estudo Anatômico sobre o Movimento do Coração e do Sangue nos Animais” e dessa simples consciência abriu-se o caminho para o entendimento de uma doença que continua desafiando a medicina até hoje: a insuficiência cardíaca, que pode ser sistólica ou diastólica.

Mas o que é afinal a sístole e a diástole?

Na insuficiência cardíaca sistólica a fração de ejeção é reduzida ou em outras palavras, o coração tem a sua capacidade de contração gradativamente reduzida, como consequência de uma inadequada contração dos seus ventrículos, durante cada batimento cardíaco, de modo que o sangue não é adequadamente bombeado.

Já na insuficiência cardíaca diastólica, apesar da fração de ejeção até ser norma, ocorre não consegue encher-se completamente de sangue enquanto o coração descansa, entre cada batimento cardíaco.

A insuficiência cardíaca pode afetar cada um dos ventrículos, esquerdo ou direito ou até ambos.

O gráfico abaixo ilustra o funcionamento do coração e apresenta uma comparação entre um coração saudável e outro, já doente.

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De uma forma geral a insuficiência cardíaca é consequência de outros males, que afetaram o nosso coração antes dela, tais como:

Cardiopatia – pode ser congênita (quando nascemos com algum defeito de fabricação!) ou causada por lesões ou infecções no músculo cardíaco;

Doença Valvar – podemos nascer com alguma deficiência em uma ou mais das quatro válvulas cardíacas, elas também podem ser afetadas por uma infecção ou ataque cardíaco ou ainda sofrerem os efeitos de uma febre reumática quando o coração está em crescimento. No meu caso eu nasci com a válvula aórtica mal formada, ela era bicúspide ou seja, era formada somente por duas partes e não três e ainda tive meu caso piorado porque sofri da tal febre reumática, aos dez anos de idade;

Arritmias ou batidas cardíacas irregulares – podem ser consequência das mesmas causas elencadas acima – também fui afetado por isso;

Hipertensão arterial – a famosa pressão alta, um inimigo geralmente invisível e assintomático;

Doenças da glândula tireoide;

Quimioterapia e Radioterapia;

HIV / Aids;

Abuso de álcool ou de drogas ilícitas;

Cabe aqui frisar que os aspectos acima podem causar a insuficiência cardíaca, ou seja, necessariamente não a causam.

E quais então são os sinais ou sintomas que podem indicar a presença da insuficiência cardíaca?

Como já foi dito a sua presença impede que o coração ou se encha completamente de sangue quando em repouso ou, quando não consegue bombear o sangue que necessitamos para o nosso corpo.

A insuficiência apresenta-se em quatro níveis de desenvolvimento e em qualquer uma delas o que nosso coração faz pra compensar essas deficiências é aumentar o seu volume, principalmente do ventrículo esquerdo e com isso tentar compensar o que lhe é exigido.

Podem ser dois os efeitos principais da insuficiência cardíaca: primeiro, não chegar sangue suficiente para o corpo, o que pode causar fadiga e em segundo lugar, o sangue ficar retido, aguardando para  entrar no coração. Este acúmulo de sangue provoca a saída de líquidos dos vasos sanguíneos para os tecidos circundantes. O resultado é o acúmulo de líquidos geralmente nos pulmões, abdome e pernas.

No início, o corpo se ajusta para tentar compensar o bombeamento insuficiente do coração. No entanto, estas adaptações só funcionam por um certo espaço de tempo, alongo prazo os sintomas aparecem e evoluem, caso não tratados, para os descritos a seguir:

  • Falta de ar durante a atividade física ou mesmo em repouso (com a evolução mais grave da doença); impossibilidade de permanece deitado e tosse persistente ou chiado com catarro branco ou rosa tingido de sangue (devido ao acúmulo de líquidos no pulmão);
  • Inchaço (edema) nas pernas, tornozelos ou pés;
  • Inchaço da barriga (ascite);
  • Vontade de urinar a noite;
  • Batimentos cardíacos rápidos ou irregulares;
  • Fadiga e fraqueza;
  • Ganho de peso repentino devido ao acúmulo de líquidos no corpo;
  • Falta de apetite e náuseas;
  • Dificuldade de concentração ou diminuição da atenção;

Algumas pessoas podem experimentar sintomas de depressão e ansiedade decorrentes de transtornos emocionais.

Agora vamos ao lado bom da história: a insuficiência cardíaca pode ser tratada e, quanto antes detectada, melhor será o resultado. A medicina tem evoluído muito no seu tratamento, mas essa doença ainda é a que mais mata, superando os canceres de mama e de intestino juntos. Estima-se que hoje no Brasil exista ao redor de 6 milhões de pessoas sofrendo deste mal nos diversos estágios, são diagnosticados ao redor de 100 mil novos casos ao ano, é a primeira causa de internação de pessoas com mais de 65 anos e 50% desses pacientes hospitalizados morrem em até cinco anos após o diagnóstico.

Falando especificamente da hipertensão, uma das causas do insuficiência cardíaca, sintoma completamente ao alcance de nosso controle, o Jornal Nacional apresentou uma matéria muito esclarecedora – vide aqui

Depois dessa matéria, digamos um pouco alarmante, vale dizer que ao longo do tempo foram sendo descobertos vários novos medicamentos que ajudam tremendamente no tratamento da insuficiência.

A seguir um breve resumo dessa evolução, década a década:

1970 – os diuréticos passaram a ser usados rotineiramente com o objetivo de diminuir a retenção de líquidos causada pela insuficiência;

1980 – foram desenvolvidos inibidores de enzima que interferem no processo de vasoconstrição do coração, em consequência eles melhoram a sua força muscular e com isso mais conforto aos portadores de insuficiência;

1990 – chegam às farmácias betabloqueadoras específicos, que ao conterem a ação da adrenalina, reduzem a frequência cardíaca e em consequência dão uma folga ao músculo cardíaco – todo portador de insuficiência cardíaca tende a ter elevação acima do normal dos batimentos cardíacos. Nessa mesma ocasião também surgem os inibidores de aldosterona, substancia que ajudam a evitar a retenção de liquido;

2014 – finalmente surge uma nova molécula, a LCZ696, que permite uma dupla ação: evita o aumento exagerado da vasoconstrição (faz com que o coração não bata aceleradamente) e promove a vaso dilatação (com mais espaço o sangue flui mais facilmente);

Futuramente – certamente – novas evoluções de medicamentos ocorrerão no sentido de pouparem ao máximo o funcionamento do músculo cardíaco num regime inapropriado e, daí a insuficiência ficará cada vez mais fácil de ser contornada e em consequência a necessidade de um transplante também ficará cada vez mais distante.

Cabe aqui observar que a solução para a insuficiência cardíaca, no seu estágio terminal, é o transplante, mas essa é uma solução ainda muito difícil de ser concretizada pelas dificuldades que apresenta para a sua realização – em 2015 somente 145 pessoas foram transplantadas no Estado de São Paulo e esse foi um recorde e algumas não conseguiram sucesso nesse procedimento.

Muito provavelmente num futuro, um transplantado de coração virará uma peça de museu! Creio que é isso que me espera!

Provavelmente a pergunta que muitos devem estar se fazendo: Qual a solução para uma pessoa que já está no último grau da insuficiência e o transplante não acontece ou não pode ser feito?

O coração artificial já uma alternativa, ainda provisória, para se ganhar tempo para a espera de um transplante ou do surgimento de alguma nova droga mais atuante.

Convido-os a lerem o artigo escrito pelo Dr. Edmar Atik, muito esclarecedor a respeito dessa utilização Clique Aqui e também a matéria publicada pela BBC Brasil em 15.06.16, que relata a vida de um americano que viveu 555 dias com a ajuda de um coração artificial Clique Aqui, até ser transplantado.

No meu trabalho voluntário no Incor já é normal encontrar pessoas ligadas a um balão intra-aórtico que lhes dá sobrevida e algum conforto adicional. Como ele é apenas um dispositivo mecânico de assistência ao ventrículo prejudicado, o paciente tem de ficar na cama, praticamente imobilizado, ele é introduzido pela virilha, é muito incomodo portanto e restringe completamente o paciente.

Não é nada ideal, mas lhe dá tempo de esperar mais.

Outra solução possível é a implantação de um ventrículo artificial, que fará as vezes do natural doente – ainda é um procedimento muito pouco usado devido ao seu alto custo.

Nos meus dois anos de voluntariado conheci apenas uma pessoa que passou por esse procedimento e vejam que nesse período já mantive contato com mais de 150 pacientes diferentes!

Essa pessoa vive com o ventrículo artificial externamente ao corpo, ele é conectado ao coração através de tubos e funciona a base de bateria – ela as usa num cinto que carrega junto dela, cada uma dura ao redor de seis horas, quando uma está acabando automaticamente a outra passa a funcionar, essa pessoa tem a seu dispor um carregados de baterias para quatro unidades – com todo esse aparato ele pode se movimentar, caminhar e levar uma vida quase normal, até viajar, sempre calculando previamente o tempo de viagem versus o número de baterias necessário.

Bem, eu conheci essa pessoa antes do implante, ela estava péssima, praticamente imobilizada no leito e a encontrei, 15 dias após, já sentada, até sorrindo e com alguma esperança de novo. Esse procedimento ainda é muito caro e neste caso especial ele se enquadrou num programa especial que o Hospital Sírio Libanês está colocando em prática – ela foi provisoriamente transferida para o Sírio, lá foi operada e logo após a recuperação cirúrgica foi novamente trazida para o Incor.

Terminando este tema falamos muito que a insuficiência cardíaca faz com que o coração aumente de tamanha para compensar o seu mau funcionamento. Mas como transmitir de quanto é esse aumento.

A foto abaixo é muito especial: mostra a diferença entre o coração doente retirado do paciente e o outro sadio, que foi implantado.

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Participei há algum tempo, junto com a equipe do HIAE (Hospital Israelita Albert Einstein), na produção de um vídeo muito ilustrativo a respeito – caso lhe interesse Clique Aqui.

Cabe aqui registrar as fontes de onde pude compilar o texto acima:

  • Sociedade Brasileira de Cardiologia;
  • ACTC – Casa do Coração – matéria de Dr. Edmar Atik;
  • VEJA – edição de 10.12.14
  • BBC Brasil – edição de 15.06.16